Sociologia tropical

Iara Vicente

Minha relação com a sociologia parece a relação de Clarice com a escrita. Ela diz que escreve pra salvar a vida de alguém, provavelmente a sua própria vida. O que eu gosto na Sociologia é a oportunidade que eu tenho de aprender a nomear o mundo, de compreender os processos naturalizados por muitos, e de, enfim, assumir o controle sobre a minha própria narrativa. A minha, da minha vida, mulher, novinha, cientista, empreendedora, filha, irmã, neta, sobrinha e todas as outras identidades que se constroem de acordo com meu lugar no mundo – que é, também posição, em todos os sentidos da palavra.

Cresci namorando os livros grossos de meu tio Marcos Afonso e a enciclopédia Barsa da minha Avó Neuza. Aqueles livros sisudos que diziam o que a vida é, como funciona, o que existe e o que não existe. Brinquei muito com livros, e acho que no fundo sempre me perguntei como é que faz pra fazer um daqueles, pra ser a pessoa que distribui e organiza os nomes. Era isso que eu queria desde o inicio, primeiro com a escrita (meu sonho era ser escritora), depois com a sociologia, e sua mística: descrever, catar, organizar – inventando só uma coisa ou outra. Que quando a história é boa, não precisa de remendo. A verdade basta. É densa e bonita em si só, assim como o Brasil.

Então eu queria escrever, e como eu não sei fazer nada de pouco, queria fazer logo um dicionário da boa política florestal. Eu hoje sou formada na Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Columbia University, mas costumo dizer (e acredito, de verdade), que a minha primeira escola de assuntos públicos e internacionais foi o socioambientalismo da Amazônia. Ainda criança, assistir esse misto de loucura, intuição, cooperação e bom gosto que foi o pioneirismo em desenvolvimento sustentável no Acre.

Eu vi, criança ainda, gente normal virar político, gestor, senador, inventar identidades regionais, fazer reforma agrária a moda amazônica, beneficiar castanha, conter desmatamento, fazer manejo de florestas, tecer filosofia, inventar a política. Eram meus tios e tias, minhas tias-avós, mãe, pai, os amigos dos meus pais, meu padrinho de batismo. Minha madrinha Áurea de repente estava escolhendo quais florzinhas seriam plantadas nas praças e rotatórias de Rio Branco. A Marina, que era seringueira e também militava com a turma dos meus pais, estava carregando a bandeira olímpica lado a lado com o gigante Muhamed Ali. Meu tio Marcos, ex-guerrilheiro que aguentou dias num ônibus rumo a um congresso ilegal do movimento estudantil com apenas um pacote de bolacha cream cracker, era Deputado Federal da República Federativa do Brasil. Chique perde.

Eu nunca perdi a naturalidade perto deles, nem o fascínio em ver quão longe chegaram (chegamos?), vindo do nosso cantinho do mundo, o par de asas estendidas sob o coração da Amazônia. Já parou pra pensar de onde vieram os políticos? Há o dinheiro velho, há a corrupção, há os movimentos sociais e há correntes ideológicas. Mas o Acre esteve sempre tão na borda, da floresta e do mundo, que as categorias tradicionais da ciência política não explicam como esse gato pingado de ambientalistas fez tanto com tão pouco. Também não explica que tipo de ambientalismo é esse, qual a ética, qual a estética, e porque é que deu tão certo apesar dos pesares.

Aí eu quis explicar. Inventei, e tive a sorte de me deixarem inventar. De topar com muita gente brilhante e generosa que acreditou no meu potencial e que, no final das contas, também queria saber dessa história tão bonita quanto não-contada de cooperação e invenção política que mudou de forma definitiva a política ambiental do Brasil e do mundo. E apesar de meu mestrado ser um programa executivo, que condensa dois anos de Mestrado em Administração Pública em um só mais uma base variada de ciências exatas e da natureza, pude fazer a minha pesquisa. Foram quase 40h de entrevistas, divididas em 12 temas. Pelo tamanho, o prudente seria fazê-la como uma pesquisa de doutorado, ou de mestrado. Mas se só tem tu, vai tu mermo. Quis fazer, senti a urgência de contar esta história. E comecei a escrever.

A lógica orientadora desta pesquisa é a convicção de que há uma tendência na comunidade ambientalista brasileira de conhecer com mais profundidade problemas ambientais do que as iniciativas que funcionaram para resolver estes problemas. Tendo tido o privilégio de ver de perto a descoberta e implementação não só de soluções em políticas públicas, mas de todo um estilo de cooperação intersetorial caboclo resolvi, então, criar um livro-texto das principais contribuições dadas pelo socioambientalismo brasileiro sob uma perspectiva intimista, identitária, nossa mesmo.

Acredito que cooperação, boa política, ética e gestão eficiente de recursos devem ser compreendidos como tecnologias sociais. E como tecnologia, pode ser avançado, customizado e ter seus mecanismos estudados a fundo. Avanços políticos tem a ver com o momento histórico, mas também com a engenhosidade e invenção política das comunidades interessadas em melhorar nosso futuro comum. E é nesta segunda parte, que é mais acessível à disposição humana, que eu resolvi me focar.

Tenho esse problema, ou vantagem… Não sei. Mas tenho isso de ser uma pessoa inaugural, de me apaixonar pelo produto imaginado de um projeto e da sua também imaginada relevância e ir montando mosaicos com estes produtos imaginários, o que me faz perder a mão do “fazível” com facilidade – meu orientador de graduação, Dr. Tavolaro, que o diga. Mas, como diz o vernáculo popular, só tem tu, vai tu mermo. Esse é o meu ímpeto, a minha ferramenta de trabalho. Então, vamos lá!

E lá em cima me deixaram, com muita leveza e naturalidade, inventar. O preço, é que com a liberdade acadêmica vem responsabilidade. Você pode até inventar de construir uma plataforma web como experimento em semiótica (eu fiz, inclusive), organizar um seminário, construir um protótipo ou todas as alternativas anteriores, mas no final precisa segurar a marimba e entregar o que prometeu. Mas outra diferença fundamental entre as culturas acadêmicas daqui e de casa é que aqui, há espaço pra errar. Faz parte do processo. Ninguém espera que você acerte sempre, e o progresso acadêmico é considerado de fato como um processo, com início, meio e vários fins. O importante é ir até o fim no que se começou, e aprender com isso lições. Pelo menos na minha Columbia, e eu acho isso muito, muito bonito.

Outra coisa que pra mim por lá foi importante foi poder escrever, ouvir e meditar sobre a história política longe do FLA x FLU ideológico que estávamos a viver, como país, nos últimos anos. Agora que a poeira está baixando, vê-se que é tem bastante gente torcendo pro America, pro Atlético Acreano (eu!!!) e pro Bangu também. E que não ser Flamengo não quer dizer ser Fluminense, e vice-versa. A gente faz piada, mas essa luta de classes estilo 5a serie A versus 5a serie B acaba com a imaginação da gente. Todas as conversas pareciam iguais. Cada lado com suas gírias e eu, mentalmente exausta, sem conseguir escrever. Estava precisando mesmo desse momento. Pesquisa, no seu sentido mais tenro, significa perguntar e ouvir. Procurar e, com cautela, encontrar. Catar significado e organizar o mundo. Eu estava precisando disso pra poder começar a sonhar de novo.

E por falar de dissensos, em meio ao cabo-de-guerra penso que ao menos dois consensos nos saltam aos olhos. Primeiro, que a democracia é uma conquista da sociedade brasileira. Que apesar de suas limitações, é o caminho que escolhemos como povo para construir um futuro melhor. E segundo que, se há leis numa democracia, elas devem ser iguais, em conteúdo e cumprimento, para todos na República. Não se pode querer o “aos amigos tudo, aos inimigos a lei” e reconhecer a democracia como um valor ao mesmo tempo. É um ou outro. Leis injustas devem ser derrubadas. Boas leis devem ser implementadas. De todos os cantos que eu olho vejo muita coisa a fazer. E sinto vontade de fazê-las, de solucionatizar aquilo que tão bem aprendi a problematizar na Universidade. E que essa soluções se inspirem no que deu certo no passado e em outros cantos, e que, sobretudo, se pareça com a gente.

Que dialogue com as coisas que a gente gosta – nossa música, comida, nosso senso de humor. Com as coisas que quer gostar mais ainda está pegando o jeito – a ciência, a filosofia, as técnicas e a tecnologia. Com as coisas que a gente lembra vagamente – as histórias, valores e o palavreado dos antigos. E com o que a gente conhece muito bem, como a sequência de casas na rua em que cresceu, ou a trajetória que as mangas e ouriços de castanha fazem quando deixam suas árvores para, por fim, arriar.

Porque isso não pode ser sociologia? É, em certa medida. Mas pode ser mais, porque o fato de algo ter significado, seja uma foto ou um corte de uma árvore é, por si, humano. E por definição, social.

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