…e vamos ficando no Face

Veriana Ribeiro

Ando percebendo um descontentamento generalizado com as redes sociais, mais especificamente, o Facebook. As pessoas reclamam da grande quantidade de amigos virtuais que são desconhecidos, dos textões, da intolerância nos comentários e as brigas entre amigos e familiares. A atual conjetura política não ajuda, inflamando ainda mais os debates e a intransigência  na rede social. Cada vez mais amigos estão excluindo suas contas, limitando suas participações na rede ou fechando-se em bolhas sociais. E aí, eu pergunto: se estamos todos infelizes, porque ainda continuamos no Facebook?

Há alguns anos, quando o Facebook começou a ‘bombar’ no Brasil, o meu pai decidiu fazer um perfil. Em pouco tempo, excluiu, disse que não aguentava ler “tanta gente falando besteira” todos os dias. Na época, não entendi. Achava a rede social divertida, conversava com todos os meus amigos e ficava compartilhando textos, links, vídeos e memes. Ainda faço tudo isso, mas a cada dia me vi mais impaciente na rede social, tudo parece muito descartável, inútil. Fotos de pessoas que não convivo pessoalmente, textos sobre assuntos que não me interessam, comentários que promovem o ódio, tretas desgastastes e alguns vídeos de gatinhos que animam o dia.

Acho que ainda não estamos prontos para saber tudo o que nossos amigos e conhecidos pensam. É mais fácil ser amigo de alguém, quando os comentários se apagam nas lembranças. Mas na internet, eles ficam lá. Ás vezes são coisas pequenas, uma piada infeliz ou um comentário um pouco preocupante. Outras, é impossível ignorar, e fica aquele pensamento “Como eu me relaciono com essa pessoa?”. Não importa qual sua ideologia (partidária ou não), é impossível sempre concordar com tudo o que outra pessoa pensa ou faz.

Conversando com uma amiga, ela disse que tinha encontrado um aplicativo que bloqueava seu feed de notícia e isso salvou algumas de suas relações. “Eu estava quase parando de conviver com as pessoas, estava ficando intransigente com todos a minha volta”. Aquela foi a forma que encontrou para não sair da rede, mas não ter que lidar com o pensamento das pessoas em sua rede social: ela se enfiou em uma bolha. Pronto. Permaneceu seguindo algumas páginas, pesquisando eventos e  visitando o perfil de alguns (poucos) amigos.

Outros não encontram motivos para continuar e simplesmente desistiram desta vida virtual, cometendo o famoso facebookcídio. A razões são muitas: precisavam se focar nos estudos, prezavam por mais privacidade ou simplesmente não encontravam mais utilidade para a rede social. Mas a maioria não tem essa coragem, clica em “apagar esta conta”, mas desiste assim que vê as fotos dos amigos mais próximos, que vão permanecer na rede.

Eu estou neste grupo. Muitas vezes decido apagar minha conta no Facebook, mas sempre encontro uma desculpa para permanecer: Como vou saber das festas sem os eventos? Mas e aquele grupo de trabalho que preciso acessar? Ah, mas como vou viver sem aquela página legal de histórias em quadrinho? E os divertidos memes?

A verdade é que existe apenas uma razão para que eu, e muitos outros, permaneçam no Facebook: nós temos medo de ficar de fora. Não da rede social, mas do grupo. É como na escola, quando todo mundo se reúne na hora do recreio. Você não quer ser o único a ficar de fora, não é? Por mais difícil que seja permanecer, ás vezes é mais difícil ser o excluído. Os seus amigos vão falar de coisas que você não terá nem conhecimentos, é como se, ao abandonar o facebook, você de alguma forma deixasse de existir.

Eu ainda crio coragem para me libertar desta rede social, que já não traz mais tantas alegrias. Enquanto isso não acontece, sigo vendo meus vídeos de gatinhos, tentando limitar cada vez mais minha participação na rede. Talvez um dia eu descubra o prazer de experimentar o mundo real, sem precisar compartilhá-lo.

 

Ilustração por Lara Vieira.

2 thoughts on “…e vamos ficando no Face

  1. Realmente, o texto é pertinente. Eu também me pergunto se é viável ou não continuar no facebook. Atualmente não tenho tido disposição de navegar, pois as informações são tantas que se formos ser seletivos, fica pouca coisa para acompanharmos. Nesses dias, tenho entrado para ver os aniversários de amigos. Precisamos de um espaço mais cultural e mais seletivo.

  2. Já quis sair, já tirei férias dele duas vezes, já tive abstinência e já abusei.
    Os amigos de longe, já que morei em outras cidades, e a família espalhada tbm me prendem. Controlo ao máximo meu feed, vou dando unfollow direto em todo tipo de fanático, restrinjo minhas fotos, fiz listas de amigos com diferentes graus de acesso – antes do face propor suas próprias listas, e assim tento sobreviver, pois como dito no texto, não sei se estou pronta pra ficar de fora.

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